Ele estava de bruço na maca, com fuligem o cobrindo por inteiro. Sua roupa foi cortada com exceção dos coturnos e da camiseta. Eu disse a ele, “isso vai doer bastante.” Depois comecei a enfiar Kerlex* na ferida do tamanho de um limão na sua panturrilha. Um pedaço de fuselagem da aeronave tinha perfurado a sua perna. No momento em que fiz, ele começou a gritar e a se contorcer de dor. Primeiro ele só urrava sons, depois começou a dizer algumas coisas.

“Ai meu Deus, para Doc, Para!”

Serrei os dentes e tentei ignorar os seus pedidos implorantes, tenho que “plugar” os seus ferimentos, só um torniquete não vai adiantar. Vai prevenir uma infecção, acelerar o processo de cura e é uma das maneiras mais rápidas de se iniciar a coagulação do sangue, mas vai doer demais. E então, neste dia, eu fiz um homem sofrer uma dor imensurável para salvá-lo.

“Não posso cara, eu tenho que fazer isso”

Imagine uma corte profundo sendo limpo com álcool, mas bem pior, pois está dentro do corpo. Coloquei meio rolo de Kerlex* na sua perna, provavelmente demorou de 20 a 30 segundos. Mas foram segundos que ficaram marcados na minha memória. Não era a primeira nem a ultima vez que teria que fazer aquilo.

Certa vez tive que ajudar um homem que tinha fraturado o rádio e a ulna, ele estava sob anestesia local e alguns opioides, mas mesmo assim chorava de dor. Posso te dizer que o som de ossos quebrados, roçando um no outro, é algo que nunca irá esquecer. Tem que tirar isso  da cabeça ou não conseguirá fazer o trabalho.

Uma das coisas mais difíceis de se tratar são queimaduras. O cheiro de cabelo e pele torrada nunca sairá da sua cabeça. A pior parte é a dor, você simplesmente não pode tocá-la. Qualquer toque provoca dor. Dar anestesia não é uma boa opção. Você tem que colocar bandagens nas feridas, a pele está comprometida e se não limpar as queimaduras rapidamente, elas IRÃO infeccionar. Ah, mas a dor que elas causam, essa eu não desejaria a ninguém. Tive que tratar queimaduras de terceiro grau três vezes na minha vida, experiencias que prefiro deixar na lixeira da mente, mas elas, como a maioria, estão bem vivas na minha memória.

Mas a pior coisa que todo Médico de Combate é treinado mas tem pavor em encarar pode ser simplesmente rotulado de A Escolha. Não há nome formal. Quem vive, quem morre. Uma rápida olhada de um Médico Combatente bem treinado é normalmente tudo que é necessário para dizer se uma vítima esta além de qualquer ajuda. As queimaduras estarão muito fortes ou as feridas nos lugares errados. Vão gritar, gemer de dor e implorar para que você os ajude, mas você não poderá.

A responsabilidade para com um jovem de 18 anos que chora copiosamente, pedindo pela mãe, e ao mesmo tempo sangra até a morte por um buraco na perna, que invadiu o seu pélvis. Não há como “plugar” um buraco deste tamanho. Pode se dar algum alivio de curto prazo, mas quase sempre ele não será a única vítima. Logo, não poderá perder tempo com alguém que você simplesmente não conseguirá salvar. As decisões são tomadas em um piscar de olhos. O tempo que demora para olhar uma pessoa da cabeça aos pés. O seu líder de pelotão vai chamar o resgate (9 linhas) e os seus colegas de farda ficarão ao seu lado pra dizer a ele que tudo ficará bem, mas você sabe que não

Algumas pessoas já me perguntaram “eu vou ficar bem?”

Você nunca fala não. Nunca fala a verdade. As vezes fica calado, mas o mais comum é mentir. Não pode falar para um homem que esta morrendo de medo de morrer que ele tem só alguns minutos de vida. Tem que forçar um sorriso e transmitir o maior conforto possível. Mais tarde esse momento vai te assombrar, vai ter pesadelos pelo fato de ter mentido e vai desejar que, de alguma forma, conseguisse fazer aquelas palavras virarem verdade.

Haverá momentos que terá que tratar homens ou mulheres que tentaram te matar momentos antes. Crianças que tiveram a má sorte de estarem no lugar e na hora errada. Você, de alguma forma, terá que trata-los imparcialmente da mesma forma que trataria os seus colegas de farda. Irmãos que lutou, dormiu e sofreu ao lado. A vida de um Médico Combatente não é nada fácil. Aliás, é o trabalho com mais responsabilidade no meio militar. A verdade é que não existe um soldado que é eternamente grato aos Médicos Combatentes que servem ao seu lado e que irão ao encontro deles se precisarem.

“Antes de Deus, antes de suas mães, eles chamam por mim. Sou o Médico de Combate, e irei sempre ao seu encontro”

*Kerlex – Gaze em forma de rolo

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